Monthly Archives: November 2009

Se eu fosse virtual

Se eu fosse virtual

Flávio Nickel

Imagem copiada de http://smeira.blog.terra.com.br/

“Chegou o tempo em que ou você é alguém@onde.oque ou você não é ninguém”

Se pudesse ser uma coisa, uma outra coisa, eu queria ser um software, digital, virtual. Não seria muito exigente. Bastava ser virtual. Se eu assim fosse, eu dominaria as dimensões do tempo e do espaço e viajaria pelo planeta digital e me deliciaria congestionando o tráfego na Trafalgar Square. Literalmente passearia pelos sites literários e num dia de sol enviaria um e-mail a Castro Alves e num navio negreiro, navegaríamos por mares nunca dantes navegados em companhia de Camões e Robinson Crusoe. Também por e-mail, convidaria Helena e Capitu para ir à Espanha assistir a uma tourada e mais tarde, em casa de Almodóvar, descansaríamos numa cama para três. Nas terras da Rainha, pesquisaria na Enciclopédia e com pontualidade Britânica iria ao chá das cinco com Shakespeare e Sherlock. Convidaria Rimbaud para um bate papo na Gallerie La Fayette e numa sexta à tarde me conectaria com Belo Horizonte, aonde iria ao clube da esquina, tomar um café com bytes em companhia de Milton e Lô Borges.

Ah, se eu fosse virtual! Se eu fosse virtual, teria memória sem limites e poderia guardar tudo do passado e do presente. Então, me presentearia com um álbum dos Mutantes. Seria amigo de Vinícius, de Chico e de Janis Joplin. Com Lennon e McCartney, Pena Branca e Xavantinho, formaria uma banda larga inusitada e tocaríamos juntos em MP3.. Seria virtual, mas com sentimentos e, com Noel e Adoniram, choraria melosas canções de amor numa rádio digital. Mesclaria Pixinguinha e Marisa Monte em uníssono, cantando Rosa, em poesia não em prosa, para fazer alguém feliz. Se eu fosse virtual, Bach me ensinaria que na música, a nota codifica o som, e eu o explicaria que na informática, o bit codifica a ação. Se eu fosse virtual e cometesse crimes, Dostoievski seria meu advogado e meus castigos minimizados. Poderia até ser processado, mas por processadores, que me mandariam pra Alcatraz. Lá eu escreveria minhas memórias do cárcere e um postal eletrônico para Marco Polo. Planejaria uma fuga lá para o reino de Khan, a quem eu contaria de minhas andanças pelas terras do sem fim. Depois, criaria um portal de games para jogar Dama com as Camélias e enviaria flores virtuais para Madame Bovary. Digitalizaria o amor, para que minha musa não guardasse de mim apenas impressões digitais e fundaria com Gullar a Academia Brasileira de Bytes. Não seria um Highlander, mas seria imortal. Se eu fosse virtual, simularia o meu Taj Mahal, onde leria As mil e uma noites em uma só, deitado confortavelmente em minha rede. Iria ao Louvre e admiraria cada píxel da Mona Lisa. Materializaria-me junto ao túmulo de Salvador e o tiraria dali para meu alívio e para a persistência de sua memória. Gravaria em placas homenagens a Sebastião Salgado, Picasso e Caetano constatando que a Guernica é aqui. Aprenderia com Freud sobre Édipo e o Ego num site de psicologia e entenderia que quando os sonhos assumem forma concreta, surge a beleza. Seria menino e correria Brasil afora em busca de pica-paus amarelos ou de uirapurus cantantes. Pularia carniça nas pinceladas de Portinari em companhia de Bardi e me deixaria deslizar nas curvas generosas de Niemeyer. Imprimiria elogios de louvor á brasilidade de Macunaíma e Mário de Andrade me convidaria para um banquete antropofágico em casa de Tarsila, numa mensagem com a Muiraquitã em anexo.

Se eu fosse virtual, conversaria com Da Vinci em código e compilaria com Einstein o quântico dos contos . Instalaria-me com Clarice em uma rede e a ouviria explicar sobre como (d)escrever o amor. Entenderia grego, português, inglês e outras línguas porque armazenaria todas as línguas na memória. Entraria nos arquivos do FBI, do DOPS, do SNI e da CIA, de onde hackearia informações sigilosas e as compartilharia com Henfil e Betinho. Criaria uma comunidade alternativa no Orkut e Raul Seixas seria o síndico. Em uma página de poesia, jogaria conversa fora com Drummond, depois andaríamos por uma rua qualquer de Itabira, e no meio do caminho, nos assentaríamos em um banco de dados também qualquer para escrever às crianças. Se eu fosse virtual, programaria com Júlio Verne, dez voltas ao redor da Terra, à velocidade de um download, num Led Zeppelin amarelo. Buscaria no Google, um trabalho para Marx e trocaríamos informações sobre workgroups. Após o almoço, Newton me ofereceria uma maçã e eu o convidaria a ensinar física aos engenheiros da Apple por videoconferência. Se eu fosse virtual, ao envelhecer, não me preocuparia com a forma física e nem sofreria cirurgias plásticas ou lipoaspiração. No máximo, Ivo Pitangui me atenderia em uma clínica de upgrades e eu sendo velho, não morreria. Bastaria um update, um download, e eu me renovaria como a Fênix.Tudo isso seria possível se Deus, o criador, fosse programador e, se no ato de me criar, tivesse feito um software, não um escritor. Ah, se eu fosse virtual.

Registrado e publicado também em Anjos de Prata


Geek Poema Bellum Poema

Geek Poema Bellum Poema

Uma guerra se faz por falta de amor e com muito ódio. Uma guerra se faz com políticos que não vão à guerra. Uma guerra se faz com egoísmo e indiferença. Uma guerra se faz. Uma guerra se basta. Basta. Um dia desses conheci um poema que mexeu comigo. Leo Gonçalves, amigo, tradutor, poeta, genial me apresentou seu WTC BABEL num encontro na Faculdade de Letras. Bem, disse pra ele que o poema era pra ser gritado, e foi. Fez um sarau do caramba e apresentou o poema-manifesto com muita qualidade e competência. Sempre gostei do tema e de WAR PIGS .Daí eu que estou sempre mexendo com coisas de ler e de escrever inventei umas e melhorei outras e assim me veio saindo o GEEK POEMA. Uma coletanea de poemas visuais de protesto baseados em HTML e com o tema GUERRA. Guerra e HTML, poema e computação, escrever e lutar. Cada um tem sua guerra particular, a minha é constante e é contra um inimigo abstrato, é um inimigo invisível e como diria um cantor de uma certa banda “I’m a soldier of freedom in the army of a man”. Em breve mais alguns serão postados.

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Livreto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/

Livreto publicado na Revista txt da Faculdade de Letras da UFMG em  http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/geek_poema.html


Namoro virtual – Flávio Nickel

Namoro Virtual*

 

“Se um cara chamado Portões ficou rico vendendo janelas que vivem quebrando, acho que posso abrir minhas portas”

 

Tudo aconteceu num cybercafé. Ela era teen e amava um chat. Ele era hacker e estudava sistemas. Marcaram um encontro na Café com Bytes, uma mistura de café, boate e ponto de encontro dos usuários de computador. Ela foi de micro-saia, laptop vermelho e sapatos salto alto. Ele foi de walk-machine, óculos escuros, aro de tartaruga. Entrou, escaneou a área do bar e a localizou perto da máquina de refrigerante. Se reconheceram pelas fotos que exibiam na Internet. Cumprimentaram-se e ele viu que não precisava perguntar como ela era. Instalaram-se numa giratória e pediram um suco natural.

 

Tudo cooperava para o encontro e o ambiente era compatível. Falaram das imagens que criaram um do outro, do tempo e da nova configuração política mundial depois da guerra, mas tudo soava muito superficial. A verdade é que a conversa estava uma chatice. Nada a ver com o Chat onde sempre tinham assunto.Olhavam-se envergonhados e ficaram horas compartilhando o suco invisível que acabara há muito tempo. Até que ele sugeriu um programa diferente e ela aceitou.

Foram para o reservado, no nível de cima do bar. Havia pcs conectados em cabines individuais e o som ambiente tocava “Nunca te vi sempre te amei” da Broadband, o novo mp3 que era um record nos sites de download. Ele se assentou de frente pra um pc compaqto, enquanto ela alisava os cabelos com um pentium de lítio. Ela ligou o laptop, ele já estava on-line e conectaram-se. Virtualmente iniciaram o namoro teclando elogios, depois ele a convidou para visitá-lo em casa. Ela tinha duas opções; não e ficar no bar e sim, continuar. Preferiu a segunda opção e foram para o endereço dele.

 

Era uma casa muito grande mobiliada com muitos arquivos e algumas janelas sobrepostas, parecendo um office moderno. Na casa havia um cômodo especial. Era uma área de trabalho pequena, mas pintada em branco e azul tinha-se a impressão que era maior. Na sala ele ligou o DVD e colocou um disco no dispositivo. Era o filme “ICQ – Episodio I seek you”. Assentaram-se num banco de dados que ali havia e assistiam ao filme trocando carícias. Minutos depois ele disse que iria à despensa buscar algo para comer. Não achou o milho de pipoca, embora soubesse que havia armazenado mais que o suficiente. Optou por um chocolate em placas. Ela estava ainda na sentada, mas não parecia interessada no filme. Ele como que por efeito mágico tira do bolso um anel de cristal liquido, que ela recebe estupefata enquanto come o chocolate. Beijaram-se contidamente, mas ele sabia que as mulheres têm os mesmos códigos, apenas a combinação poderia ser diferente. Ela apertou a orelha dele e sussurrou algo sobre um local mais à vontade. Ele como em automático a arrastou para outro compartimento com um wallpaper amarelinho claro. Era seu gabinete. Ele abriu uma pasta, tirou uma proteção antivírus e assoviou. Carregando-a, a deitou na rede acoplada no cômodo e retirou o pesado boot que estava calçado. Amaram-se virtualmente. No ápice da conexão amorosa eles fizeram leituras dos próprios pensamentos através de um prolongado movimento de olho no olho. Amam-se novamente e toda a interação é reiniciada. Todos os sentidos são ativados pelo tato através das relações neurais. Isso traz às suas memórias uma sensação nada virtual. A ação sexual é realizada pela terceira vez, esta porém, numa webcama, que estava atrás de uma pesada porta serial. Dormem.

 

 

Ele acorda preguiçosamente e num impulso analisa a cama à procura dela. Não encontra e rastreia o quarto. Ela se foi. Tomou algum caminho que ele não sabia qual. Escapou de sua rede enquanto ele hibernava. Tudo que compartilharam estava no passado, mas não seria esquecido como um papel na lixeira e nem ele queria deletar isso da memória.Tinha perdido-a e teria que reconquistá-la, mesmo sem saber qual foi seu erro. Ainda sonolento ele maquina uma forma de reconquistá-la. Talvez enviasse flores. Talvez a convidasse a ir ao sitio, lá ele tinha uma torre onde poderiam simular a estória de Rapunzel. Talvez se acendesse uma tela pro seu santo de proteção, Jesus poderia salvar a relação. Adormeceu novamente processando informações sobre como atraí-la.

 No mundo virtual é assim, após cada encontro é preciso reiniciar.

*Conto escolhido para tema de redação no vestibular 2005 da UEM – PR

 Texto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/


Tecnostalgia – Flávio Nickel

Tecnostalgia ou notícias do mundo de lá

 

Belo Horizonte, 12 de abril de 2006

 À alguém, à algum, ao século passado

 “Caríssimos amigos os, fatos que vou narrar compreendem minha rotina diária e a saudade que sinto dos anos dourados, da infância alegre e do mundo menos tecnológico . “

 

“Assento-me numa cadeira de frente a um laptop e não há mais escrivaninha, caneta ou bloquinho de anotações. Esqueçam os cadernos de caligrafia, agora tenho um editor de textos que tem sempre a mesma letra, porque a moda agora é ser virtual. Um mundo evoluído em que a inteligência biológica se confunde com a artificial, o proibido com o permitido, a ética com a estética. O mundo se rendeu à cibernética. O processo de criação se distanciou do Criador. Qualquer um pode ser dadaísta. É tudo um jogo de dados. A inspiração já não vem dos Céus, vem do Acaso. As musas do Olimpo foram globalizadas e agora tem sobrenome ponto com. Temos sites, programas, plágio e dicionário eletrônico. As bibliotecas agora são virtuais, mas seus livros não têm cheiro. O bit é inodoro, insalubre. O Joyce e o Pessoa, as tragédias e as comédias que outro dia impressionavam nas estantes, hoje cabem todos num disquinho de plástico. Plástico também não tem gosto. A evolução é pertinente, o que incomoda é a impessoalidade. Não há mais tantos saraus literários, criaram os blogs. Para que ler se a Rede me dá tudo resumido? Enciclopédia para que? Como no sexo, só preciso de uma conexão. E a conexão também oferece prazer. Porque o apelo sexual agora é mais visual, voyer. Uma imagem vale mais que mil carinhos. O telegrama agora pesa mais de uma tonelada, é mais leve mandar um e-mail. Precisamos nos atualizar porque as janelas foram lançadas em nova versão e esta não é mais compatível com serenatas! A reciclagem agora é também de conhecimento e o bit matou a letra cursiva. As teclas tomaram o lugar que sempre foi das canetas, do lápis. Tudo é digital, inclusive as digitais, livro, foto, diário, música e saudade. Todo mundo tem um fotolog e posso fazer e selecionar os membros da minha própria comunidade. Até Da Vinci virou código. Entretanto, o conhecimento é nulo se não há inspiração. Rendi-me e transformei a letra em bit e à luz da literatura crio um hipertexto, não uso mais caneta e papel. Não saberia dizer se as relações pessoais evoluíram ou involuíram. O que sei é escrevi meu último texto num plano curvo de modelo variável dentro de um livro de luz! Encontro a solução táctil quando digito uma palavra que já não é mais palavra, é comando. Aperto teclas e mordo o lábio porque a caneta é inútil. Minha opinião nem é tão importante porque minha pátria é minha Rede, e essa Rede é minha Língua. Meu cérebro agora é um periférico (hardware) ! Minha memória é fruto de uma compilação de dados extraídos de vários sites. Antes eu sabia falar, hoje minha voz são meus dedos e minhas palavras são Words. Tenho convulsões e minha mente medula pelo lóbulo da minha orelha. Sou uma antena móvel acessível ao mundo digital.Download, upload. Envio, recebo. Se fujo disso, fico marginal. Minha letra é um signo, um símbolo matemático. Lançaram mais um jogo, eletrônico, porque pôquer é coisa do passado, futebol com os amigos só se for online! Não moro mais. Agora me hospedo em um provedor. Na minha antiga casa havia uma sala que se cansou de estar, queria ser, e hoje é sala de bate papo. Talvez esteja me tornando um homem-máquina alienado por um Sistema que não aceita aquele menino do interior. Mas apesar disso ainda sou capaz de chorar porque lágrima é água em estado sentimental (dígito não pode molhar). Se escrever ainda é arte, a minha escrita é uma oração pela volta ao paraíso.”

Texto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/


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