Gigaprayer

Fomos homens meio bicho meio terra e meio sal

Que numa noite de eclipse fomos transformados

nesta triste plantação geek de eletrodos e painéis.

Eclodiu a rede e sua composição über-artificial

Senhor, para onde iremos nós?

Superconsumidores de tudo que seria e que é

Ontem comprei meu lixo dessa noite descartável

gigabytes, mega-hertz mensuram a escuridão da realidade

Senhor, quantos gigas para nós?

Cientistas são sagazes e pensam aritmética com linguística

criam hipóteses absurdas em um cérebro eletrônico.

Busca, emula, formata, modula, mas ninguém faz a crítica

Senhor, salve um arquivo por nós!

Estudantes all hi-tec, com seus tablets moderninhos,

da telinha pro caderno pra mostrar ao professor

copiando e emulando argumentos espertinhos

Senhor, dá um ctrl C pra nós!

Solteironas acadêmicas noite adentro vasculhando a cidade

em um giro GPS em busca de um cafajeste pra gozar por uma noite.

Interação, face to face, rede social da virtualidade

Senhor, tenha piedade de nós!

Algoritmos perspicazes transformam rapazes esqueléticos

Em príncipes encantados gerados por bits com sabor de silício

Tudo é simulação configurada em resultados hipotéticos.

Senhor, virtualize o amor por nós!

network e avatar – terabyte e megahertz – acabou a energia

cloud computing –  avatar – tem scraps? this is the end.

Oba – alas – viva o bit – palmas pra tecnologia

Vírus e cyberbullying – Control Z, sou novo outra vez

Ah, Senhor, tenha um backup de nós!


Hip that shit off

Hip that shit off

This shit goes to @dawg_houston

That slap hit me as a sword of ice
I know Some cops are there disguised
Living on the edge they’re deep on vice
Chasin n dodgin  as cats and mice

black C.O.P. needs affirmation
empty feelin in his own frustration
Pulling against the wall, bad connotation
A wrong word said shapes my situation

You Teach no shit you got no guts
You black I black the same fuckin roots
No lie to me I kick your ass
You motherfucking nigga
I make your face a mess

No, no,no, COP, be fine get respect
I said no joke, just can’t object
Be cool I nice, hit me in vain
It burns like hell, let me explain

If I say a word as you demand
I bet I know You don’t understand
I civil You  law you are command
You kick my ass I can’t stand

Hey nigga, asshole You gonna do
What I say  you bettah don play the fool
Got trouble in my head and debts to pay
Son is almost dead mah wife betrayed

You know  I’ll get your fuckin ass bruised
When i slap your face you put yourself in mah shoes
Guess what I born in a shantytown
Daddy got me all fucked he let me down

Mah skin color made me all different then
School was bad n then I got  banned
Social aspec No accept  us like trash
Last corner  in the Corp was all I get

Low Wages I just can’t fight the crime
Dealers got me they pay me Ain’t got no dime
I am a person of flesh, heart, blood and bone
Honestly, my man, fate’s written on stone

It’s a mistake you piece of shit
You cop, you black, there ain’t no need
Respect I man could be your brother
I black you black I not a robber

You missed a chance to play it fair
In Your mind I’m your worst nightmare
I nice you fool and  mistake is done
You put your power on a badge and gun

You know us nigga  never betray a fellow
I’ve got what you don’t, honesty and values
Get back to the car, you damned you prick
Repent and Alone, you piece of shit!


The black seven

The black seven 

Love, money, prison, crime

Family and friends were all there

Wealth, richness, all the time

the beginning of my nightmare

Cause wine is pool for evil, all

A tamed cat behind the door

A jealous husband, a loved wife

Brings up the death, love no more

A hollowed eye was taken out

and evil is done, that’s my role

destroy the animal, now I shout

my fate I feel the gallows pole

fire, wind, death, destruction

for suffering has no name

a cat, a man, ablaze, emotion

now poor and rich are all the same

the pub and friends and fun and beer

an eye, a cat,  a mark between

a host, a wife, a feeling, fear

an axe, a cellar, an assassin

I cry in pain, death, perverseness

I killed, Oh, sin!, I’ve lost my life

A man once rich, now rot in loneliness

you now lay dead, my dearest wife

Oh cat! the witch, perverse: I felt

you built a bridge for my mistake

I killed, I died, in prison I melt

I suffer, I cry, my life you take!

***


Transcriação midiática na web 2.0

À primeira vista uma série de videos que se copiam. À luz da teoria dos estudo das narrativa transmidiática o fenômeno  da replicaço. Glee é mais um dos inumeros momentos em que as novas tecnologias permitem que serem humanos comuns se aproximem de seus ídolos, o adoradores se passam por adorados, o consumidor se tornando o próprio criador. Casos como este somente são possiveis gracas à maneira como  os novos itens de consumo são divulgados. O youtube permite ao telespectador tomar o lugar da estrela e fazer uma releitura das ações do ídolo baseada em sua própria experi~encia. A mídia está sendo recriada ou reinventada por permitir ao interlocutor uma relação dinâmica. Cópias e mais cópias de si mesmo são possíveis graças aos recursos oferecidos online. Glee é apenas um referencial, nunca a matriz. As cópias, as réplicas, as montagens são frutos da possibilidade de participação. Na cultura da convergência  atores são diretores e escritores são leitores de si mesmos e recriam as relações com o mundo midiático através das múltiplas variantes agora existentes. De acordo co Jenkins (2008) o filme não precisa ser bem feito, mas deve fornecer recursos que os consumidores possam utilizar na construção de suas próprias fantasias. Glee é, a meu ver, mais uma novelinha insossa para adolescentes americanos com pouca ou nenhuma atividade mais importante que ir à escola e fazer o dever de casa. Assim, outros podem recuperar o momento sublime da fama na TV e promover a transposição deste para uma nova leitura: o próprio telespectador se tornando o agente, o ator, o cantor, o personagem principal daquilo que admira. Quem nunca se pegou em frente ao espelho imitando grandes astros da TV ou estrelas da música? Quem nunca se imaginou um Elvis ou um Frank Sinatra enquanto toma banho?

É famoso na rede o hábito de tomar um vídeo famoso qualquer e recriar o áudio com novas e interessantes versões contando outras histórias. Verifique o caso do filme “A queda” que conta os últimos passos de Adolf Hitler. Várias versões do vídeo fazem sucesso no youtube, tudo a partir da possibilidade de criação dos antigos telespectadores, hoje agentes das novas mídias. Do vídeo que deu origem ao fenômeno: A queda – o vídeo “original” a vários outros transcriados: Hitler expulso de república em Ouro Preto , Hitler pedindo o chip de Pedro , Hitler banido do Counter Strike, Hitler perde o direito de usar o Twitter .

Outro vídeo também com inúmeras variantes é o de William Bonner imitando Clodovil Hernandes juntamente com Cid Moreira , mas minha  narrativa transmidiática preferida é o efeito que o desenho animado “The Simpsons” provoca nas pessoas ao recriar grandes cenas do cinema em seus episódios na TV.


Brincadeira de criança

A maneira como as novas tecnologias tem interferido em nossas relações é tão intensa que normalmente nem paramos pra pensar nisso. É famoso na rede o email que começa assim: “Você precisa ir ao clube quando…”. No referido texto o anônimo autor cita exemplos claros de situações nas quais as pessoas não mais interagem pessoalmente por contarem com a comodidade e rapidez dos meios eletrônicos. Assim, um amigo pode convidar o outro para almoçarem juntos por email ou sms, mesmo estando a centímetros de distancia, no computador ao lado. Pessoalmente esta relação tem acrescentado muito à minha vida pessoal, por ser eu um escritor amador de contos, crônicas e poemas. Hoje tudo que se relaciona ao ato de escrever faço online. Noutros tempos eu era escravo de um bloquinho de papel e de um lápis que me acompanhava por todo lado. Ainda o carrego, mas o uso é mais cadenciado com meus momentos offline. Quantos textos tenho que foram escritos a partir de impressões escritas numa frase em pedaços de papel esquecidos no fundo dos bolsos das calças e salvos a tempo por minha mãe antes da lavagem? Gostaria de recomendar a leitura de minha crônica Tecnostalgia que acredito ilustrar bem esta relação. Outro fato que me intriga é a proliferação de jogos eletrônicos e online que cada vez mais invadem nosso cotidiano. Quem não conhece ou não jogou Amarelinha, Pula-carniça, Garrafão ou Pegador? Hoje as crianças estão globalizadas e as brincadeiras estão cada vez mais dependentes de tecnologia. God of war, The Sims, Second Life, Xbox e Playstation e vários outros tomaram o lugar das brincadeiras de roda e das cantigas, das correrias, das competições infantis. Claro que na “nossa” época já havia videogames e TV, mas nada na proporção do que existe hoje. Teria o tempo do brincar sido também transformado pela onda tecnológica? Quais os benefícios dessa mudança? O que os pedagogos e psicólogos dizem sobre isso? Éramos mais felizes?


Se eu fosse virtual

Se eu fosse virtual

Flávio Nickel

Imagem copiada de http://smeira.blog.terra.com.br/

“Chegou o tempo em que ou você é alguém@onde.oque ou você não é ninguém”

Se pudesse ser uma coisa, uma outra coisa, eu queria ser um software, digital, virtual. Não seria muito exigente. Bastava ser virtual. Se eu assim fosse, eu dominaria as dimensões do tempo e do espaço e viajaria pelo planeta digital e me deliciaria congestionando o tráfego na Trafalgar Square. Literalmente passearia pelos sites literários e num dia de sol enviaria um e-mail a Castro Alves e num navio negreiro, navegaríamos por mares nunca dantes navegados em companhia de Camões e Robinson Crusoe. Também por e-mail, convidaria Helena e Capitu para ir à Espanha assistir a uma tourada e mais tarde, em casa de Almodóvar, descansaríamos numa cama para três. Nas terras da Rainha, pesquisaria na Enciclopédia e com pontualidade Britânica iria ao chá das cinco com Shakespeare e Sherlock. Convidaria Rimbaud para um bate papo na Gallerie La Fayette e numa sexta à tarde me conectaria com Belo Horizonte, aonde iria ao clube da esquina, tomar um café com bytes em companhia de Milton e Lô Borges.

Ah, se eu fosse virtual! Se eu fosse virtual, teria memória sem limites e poderia guardar tudo do passado e do presente. Então, me presentearia com um álbum dos Mutantes. Seria amigo de Vinícius, de Chico e de Janis Joplin. Com Lennon e McCartney, Pena Branca e Xavantinho, formaria uma banda larga inusitada e tocaríamos juntos em MP3.. Seria virtual, mas com sentimentos e, com Noel e Adoniram, choraria melosas canções de amor numa rádio digital. Mesclaria Pixinguinha e Marisa Monte em uníssono, cantando Rosa, em poesia não em prosa, para fazer alguém feliz. Se eu fosse virtual, Bach me ensinaria que na música, a nota codifica o som, e eu o explicaria que na informática, o bit codifica a ação. Se eu fosse virtual e cometesse crimes, Dostoievski seria meu advogado e meus castigos minimizados. Poderia até ser processado, mas por processadores, que me mandariam pra Alcatraz. Lá eu escreveria minhas memórias do cárcere e um postal eletrônico para Marco Polo. Planejaria uma fuga lá para o reino de Khan, a quem eu contaria de minhas andanças pelas terras do sem fim. Depois, criaria um portal de games para jogar Dama com as Camélias e enviaria flores virtuais para Madame Bovary. Digitalizaria o amor, para que minha musa não guardasse de mim apenas impressões digitais e fundaria com Gullar a Academia Brasileira de Bytes. Não seria um Highlander, mas seria imortal. Se eu fosse virtual, simularia o meu Taj Mahal, onde leria As mil e uma noites em uma só, deitado confortavelmente em minha rede. Iria ao Louvre e admiraria cada píxel da Mona Lisa. Materializaria-me junto ao túmulo de Salvador e o tiraria dali para meu alívio e para a persistência de sua memória. Gravaria em placas homenagens a Sebastião Salgado, Picasso e Caetano constatando que a Guernica é aqui. Aprenderia com Freud sobre Édipo e o Ego num site de psicologia e entenderia que quando os sonhos assumem forma concreta, surge a beleza. Seria menino e correria Brasil afora em busca de pica-paus amarelos ou de uirapurus cantantes. Pularia carniça nas pinceladas de Portinari em companhia de Bardi e me deixaria deslizar nas curvas generosas de Niemeyer. Imprimiria elogios de louvor á brasilidade de Macunaíma e Mário de Andrade me convidaria para um banquete antropofágico em casa de Tarsila, numa mensagem com a Muiraquitã em anexo.

Se eu fosse virtual, conversaria com Da Vinci em código e compilaria com Einstein o quântico dos contos . Instalaria-me com Clarice em uma rede e a ouviria explicar sobre como (d)escrever o amor. Entenderia grego, português, inglês e outras línguas porque armazenaria todas as línguas na memória. Entraria nos arquivos do FBI, do DOPS, do SNI e da CIA, de onde hackearia informações sigilosas e as compartilharia com Henfil e Betinho. Criaria uma comunidade alternativa no Orkut e Raul Seixas seria o síndico. Em uma página de poesia, jogaria conversa fora com Drummond, depois andaríamos por uma rua qualquer de Itabira, e no meio do caminho, nos assentaríamos em um banco de dados também qualquer para escrever às crianças. Se eu fosse virtual, programaria com Júlio Verne, dez voltas ao redor da Terra, à velocidade de um download, num Led Zeppelin amarelo. Buscaria no Google, um trabalho para Marx e trocaríamos informações sobre workgroups. Após o almoço, Newton me ofereceria uma maçã e eu o convidaria a ensinar física aos engenheiros da Apple por videoconferência. Se eu fosse virtual, ao envelhecer, não me preocuparia com a forma física e nem sofreria cirurgias plásticas ou lipoaspiração. No máximo, Ivo Pitangui me atenderia em uma clínica de upgrades e eu sendo velho, não morreria. Bastaria um update, um download, e eu me renovaria como a Fênix.Tudo isso seria possível se Deus, o criador, fosse programador e, se no ato de me criar, tivesse feito um software, não um escritor. Ah, se eu fosse virtual.

Registrado e publicado também em Anjos de Prata


Geek Poema Bellum Poema

Geek Poema Bellum Poema

Uma guerra se faz por falta de amor e com muito ódio. Uma guerra se faz com políticos que não vão à guerra. Uma guerra se faz com egoísmo e indiferença. Uma guerra se faz. Uma guerra se basta. Basta. Um dia desses conheci um poema que mexeu comigo. Leo Gonçalves, amigo, tradutor, poeta, genial me apresentou seu WTC BABEL num encontro na Faculdade de Letras. Bem, disse pra ele que o poema era pra ser gritado, e foi. Fez um sarau do caramba e apresentou o poema-manifesto com muita qualidade e competência. Sempre gostei do tema e de WAR PIGS .Daí eu que estou sempre mexendo com coisas de ler e de escrever inventei umas e melhorei outras e assim me veio saindo o GEEK POEMA. Uma coletanea de poemas visuais de protesto baseados em HTML e com o tema GUERRA. Guerra e HTML, poema e computação, escrever e lutar. Cada um tem sua guerra particular, a minha é constante e é contra um inimigo abstrato, é um inimigo invisível e como diria um cantor de uma certa banda “I’m a soldier of freedom in the army of a man”. Em breve mais alguns serão postados.

CLIQUE NAS IMAGENS PARA VISUALIZAR

Livreto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/

Livreto publicado na Revista txt da Faculdade de Letras da UFMG em  http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/geek_poema.html


Namoro virtual – Flávio Nickel

Namoro Virtual*

 

“Se um cara chamado Portões ficou rico vendendo janelas que vivem quebrando, acho que posso abrir minhas portas”

 

Tudo aconteceu num cybercafé. Ela era teen e amava um chat. Ele era hacker e estudava sistemas. Marcaram um encontro na Café com Bytes, uma mistura de café, boate e ponto de encontro dos usuários de computador. Ela foi de micro-saia, laptop vermelho e sapatos salto alto. Ele foi de walk-machine, óculos escuros, aro de tartaruga. Entrou, escaneou a área do bar e a localizou perto da máquina de refrigerante. Se reconheceram pelas fotos que exibiam na Internet. Cumprimentaram-se e ele viu que não precisava perguntar como ela era. Instalaram-se numa giratória e pediram um suco natural.

 

Tudo cooperava para o encontro e o ambiente era compatível. Falaram das imagens que criaram um do outro, do tempo e da nova configuração política mundial depois da guerra, mas tudo soava muito superficial. A verdade é que a conversa estava uma chatice. Nada a ver com o Chat onde sempre tinham assunto.Olhavam-se envergonhados e ficaram horas compartilhando o suco invisível que acabara há muito tempo. Até que ele sugeriu um programa diferente e ela aceitou.

Foram para o reservado, no nível de cima do bar. Havia pcs conectados em cabines individuais e o som ambiente tocava “Nunca te vi sempre te amei” da Broadband, o novo mp3 que era um record nos sites de download. Ele se assentou de frente pra um pc compaqto, enquanto ela alisava os cabelos com um pentium de lítio. Ela ligou o laptop, ele já estava on-line e conectaram-se. Virtualmente iniciaram o namoro teclando elogios, depois ele a convidou para visitá-lo em casa. Ela tinha duas opções; não e ficar no bar e sim, continuar. Preferiu a segunda opção e foram para o endereço dele.

 

Era uma casa muito grande mobiliada com muitos arquivos e algumas janelas sobrepostas, parecendo um office moderno. Na casa havia um cômodo especial. Era uma área de trabalho pequena, mas pintada em branco e azul tinha-se a impressão que era maior. Na sala ele ligou o DVD e colocou um disco no dispositivo. Era o filme “ICQ – Episodio I seek you”. Assentaram-se num banco de dados que ali havia e assistiam ao filme trocando carícias. Minutos depois ele disse que iria à despensa buscar algo para comer. Não achou o milho de pipoca, embora soubesse que havia armazenado mais que o suficiente. Optou por um chocolate em placas. Ela estava ainda na sentada, mas não parecia interessada no filme. Ele como que por efeito mágico tira do bolso um anel de cristal liquido, que ela recebe estupefata enquanto come o chocolate. Beijaram-se contidamente, mas ele sabia que as mulheres têm os mesmos códigos, apenas a combinação poderia ser diferente. Ela apertou a orelha dele e sussurrou algo sobre um local mais à vontade. Ele como em automático a arrastou para outro compartimento com um wallpaper amarelinho claro. Era seu gabinete. Ele abriu uma pasta, tirou uma proteção antivírus e assoviou. Carregando-a, a deitou na rede acoplada no cômodo e retirou o pesado boot que estava calçado. Amaram-se virtualmente. No ápice da conexão amorosa eles fizeram leituras dos próprios pensamentos através de um prolongado movimento de olho no olho. Amam-se novamente e toda a interação é reiniciada. Todos os sentidos são ativados pelo tato através das relações neurais. Isso traz às suas memórias uma sensação nada virtual. A ação sexual é realizada pela terceira vez, esta porém, numa webcama, que estava atrás de uma pesada porta serial. Dormem.

 

 

Ele acorda preguiçosamente e num impulso analisa a cama à procura dela. Não encontra e rastreia o quarto. Ela se foi. Tomou algum caminho que ele não sabia qual. Escapou de sua rede enquanto ele hibernava. Tudo que compartilharam estava no passado, mas não seria esquecido como um papel na lixeira e nem ele queria deletar isso da memória.Tinha perdido-a e teria que reconquistá-la, mesmo sem saber qual foi seu erro. Ainda sonolento ele maquina uma forma de reconquistá-la. Talvez enviasse flores. Talvez a convidasse a ir ao sitio, lá ele tinha uma torre onde poderiam simular a estória de Rapunzel. Talvez se acendesse uma tela pro seu santo de proteção, Jesus poderia salvar a relação. Adormeceu novamente processando informações sobre como atraí-la.

 No mundo virtual é assim, após cada encontro é preciso reiniciar.

*Conto escolhido para tema de redação no vestibular 2005 da UEM – PR

 Texto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/


Tecnostalgia – Flávio Nickel

Tecnostalgia ou notícias do mundo de lá

 

Belo Horizonte, 12 de abril de 2006

 À alguém, à algum, ao século passado

 “Caríssimos amigos os, fatos que vou narrar compreendem minha rotina diária e a saudade que sinto dos anos dourados, da infância alegre e do mundo menos tecnológico . “

 

“Assento-me numa cadeira de frente a um laptop e não há mais escrivaninha, caneta ou bloquinho de anotações. Esqueçam os cadernos de caligrafia, agora tenho um editor de textos que tem sempre a mesma letra, porque a moda agora é ser virtual. Um mundo evoluído em que a inteligência biológica se confunde com a artificial, o proibido com o permitido, a ética com a estética. O mundo se rendeu à cibernética. O processo de criação se distanciou do Criador. Qualquer um pode ser dadaísta. É tudo um jogo de dados. A inspiração já não vem dos Céus, vem do Acaso. As musas do Olimpo foram globalizadas e agora tem sobrenome ponto com. Temos sites, programas, plágio e dicionário eletrônico. As bibliotecas agora são virtuais, mas seus livros não têm cheiro. O bit é inodoro, insalubre. O Joyce e o Pessoa, as tragédias e as comédias que outro dia impressionavam nas estantes, hoje cabem todos num disquinho de plástico. Plástico também não tem gosto. A evolução é pertinente, o que incomoda é a impessoalidade. Não há mais tantos saraus literários, criaram os blogs. Para que ler se a Rede me dá tudo resumido? Enciclopédia para que? Como no sexo, só preciso de uma conexão. E a conexão também oferece prazer. Porque o apelo sexual agora é mais visual, voyer. Uma imagem vale mais que mil carinhos. O telegrama agora pesa mais de uma tonelada, é mais leve mandar um e-mail. Precisamos nos atualizar porque as janelas foram lançadas em nova versão e esta não é mais compatível com serenatas! A reciclagem agora é também de conhecimento e o bit matou a letra cursiva. As teclas tomaram o lugar que sempre foi das canetas, do lápis. Tudo é digital, inclusive as digitais, livro, foto, diário, música e saudade. Todo mundo tem um fotolog e posso fazer e selecionar os membros da minha própria comunidade. Até Da Vinci virou código. Entretanto, o conhecimento é nulo se não há inspiração. Rendi-me e transformei a letra em bit e à luz da literatura crio um hipertexto, não uso mais caneta e papel. Não saberia dizer se as relações pessoais evoluíram ou involuíram. O que sei é escrevi meu último texto num plano curvo de modelo variável dentro de um livro de luz! Encontro a solução táctil quando digito uma palavra que já não é mais palavra, é comando. Aperto teclas e mordo o lábio porque a caneta é inútil. Minha opinião nem é tão importante porque minha pátria é minha Rede, e essa Rede é minha Língua. Meu cérebro agora é um periférico (hardware) ! Minha memória é fruto de uma compilação de dados extraídos de vários sites. Antes eu sabia falar, hoje minha voz são meus dedos e minhas palavras são Words. Tenho convulsões e minha mente medula pelo lóbulo da minha orelha. Sou uma antena móvel acessível ao mundo digital.Download, upload. Envio, recebo. Se fujo disso, fico marginal. Minha letra é um signo, um símbolo matemático. Lançaram mais um jogo, eletrônico, porque pôquer é coisa do passado, futebol com os amigos só se for online! Não moro mais. Agora me hospedo em um provedor. Na minha antiga casa havia uma sala que se cansou de estar, queria ser, e hoje é sala de bate papo. Talvez esteja me tornando um homem-máquina alienado por um Sistema que não aceita aquele menino do interior. Mas apesar disso ainda sou capaz de chorar porque lágrima é água em estado sentimental (dígito não pode molhar). Se escrever ainda é arte, a minha escrita é uma oração pela volta ao paraíso.”

Texto publicado em http://favelacultural.blogspot.com/


Dead poet’s society – the e-zine

 

bard

Dead poet’s society – flaviolin.


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